quarta-feira, julho 12, 2017

Todos nós



Naquele quarto, tudo parou. Tudo que há por lá se evaporou. A energia que antes emanava por uma tarde se foi: deixando coleções de discos, dvd’s e contas a pagar. Temos um amigo em comum.

Por um lado, eu fumo um cigarro... Foi há 10 anos! Dez longos anos. Tempo suficiente para pensar em uma vida de merda, que muitos dizem ter sido estragada. Nossos destinos se confundem.

Alguns dizem que aos mortos pertence o mundo do esquecimento, que aos ossos o local da terra... Aos amigos, a eterna lembrança. Eu sinto falta. Acho que almas também podem chorar. 

Pela rua a vagar, a dormir e a escutar... Eu não deveria estar mais aqui. Mas, eu paraliso, pacífico... Me transformo em oceano de enchentes emocionais e confusões mentais, aparelhos de jardim e janelas fechadas.

Quem poderá entender o que aconteceu?

Quem poderá compreender o porquê de sermos arrancados de quem somos?

Eu sou apenas um clarão na noite a procurar por locais que não existem, por pessoas que se tornam superficiais, perfis banais de um café barato, insetos ao redor de lâmpadas de led de brilho frio. Acho que nos entendemos.

- Se me arrancares do meu túmulo, a cerca que rege meu mundo, não saberei quem sou, quem deveria reportar: Se a ti ou a mim, ou a nós. Quem somos todos nós? 

A música morre aos lábios, como quem morre em gritos. Em agonia pela idade, pela saudade, pela maturidade... Pelas praças da cidade. 

... E até o cigarro se torna cinzas.

Para André.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Entre o Corvo e a Escrivaninha



- Sabe qual é a diferença entre o corvo e a escrivaninha? – Perguntei sem que ela soubesse da resposta.

- Não – Ela coçou a cabeça, enquanto a colocava de lado, pressionando um leve dedo em seu queixo.

- O primeiro anuncia a morte, o outro decreta a morte. – Disse de uma vez, sem enrolar. Parecia simples, depois de tanto me perguntar sobre a mesma coisa.

- Eita. – Ela apenas respondeu.

- É um dos primeiros enigmas do Chapeleiro Maluco de Alice no país das maravilhas.

- Mórbido. – Fez um leve movimento com a boca, como se estivesse pensando.

Continuei. - E disse a lagarta a Alice "quem és tu?" – E apenas deixei a questão soar no ar, enquanto ela me olhava sem entender.

Começo a sorrir, quase sem motivo. As ironias que tanto nos pregam peças. – Engraçado! Lembrei da história. Lembrei de mim... – Desfilava as palavras, enquanto amargava um sorriso incontido.

- E Alice disse para você “Quem és tu, olhos profundos e enigmáticos? ”. – Poderia julgar que ela falava de mim, mas, mudei o foco bruscamente.

- Sabe por que as pessoas se incomodam com você? – Lancei, ao tempo em que assistia a cara dela incompreendida. Fiz questão de explicar que, “você” nesse caso é o outro, que não é você, mas não seria eu. Seria o outro que vive pegando no seu pé. E repeti a questão. - Sabe por quê?

Ela voltou a me olhar e perguntou curiosa – Por que?

Voltei meus olhos a um ponto qualquer, posso jurar neste momento não estar em mim. Seria o mínimo, talvez, e recomecei a falar. - Porque temos algo especial que eles não têm. Nós temos os sonhos que eles esquecem de realizar. Nós temos o mundo que eles esquecem de viver. Nós temos momentos que eles nunca poderão ter. 

Parei para respirar, lembrei de como isto parecia fácil e ao mesmo tempo demasiadamente complicado, mas continuei.

- Sabe por que você incomoda? Porque você lembra como tudo pode ser especial e imprevisível. E não fazer nada assusta. Não reagir causa temor. Não gritar é inaceitável. Viver em paz é opressivo...

Ela acrescentou algumas palavras aquele devaneio, dizendo que...

- Nesse mundo previsível, qualquer desvio é visto como anormal... – Não a deixei continuar. Talvez não a tenha escutado.

- .... Tentar ser contra o mundo é um absurdo e você é fugaz demais para ser simples, para querer viver o mesmo, para julgar que nada é como antes... – Ela deu vazão aos meus devaneios, me interrompendo outra vez.

- Primeiro você tem que estar em paz consigo. – Não é uma competição, mas, de todo modo, me intrometi outra vez.
 
- ... Você causa temor simplesmente porque você lembra aos outros tudo que eles foram e escondem em um cantinho. Porque você simplesmente não esqueceu de acreditar.

- Pessoas amargas tendem a tirar sua luz. – Faz sentindo. Todo o sentido do mundo, refleti.

- Sabe por que você assusta? – Talvez eu fingir não mais estar aqui.



Allyne e Marcela
20/12/2016